Na idade de ouro da banda desenhada franco-belga, e das suas revistas históricas, abandonar o Tintim para ir trabalhar para o Spirou, ou vice-versa, era como deixar o Benfica e ir jogar para o Sporting, ou o contrário.
Quando, em 1964, Raymond Macherot trocou a revista do herói de Hergé pela do herói de Franquin, teve de deixar para trás a sua criação maior, Clorofila (bem como o Coronel Clifton), e não voltaria mais a desenhar as aventuras de qualquer das duas personagens, que foram sucessivamente retomadas por outros autores e argumentistas, caso de Hubuc, Greg ou Dupa. Mas nunca mais com a qualidade do seu criador, em especial Clorofila.
Em finais de Setembro de 2008, Raymond Macherot morreu quase esquecido em Verviers, nas Ardenas belgas, onde nasceu há 84 anos. Tinha deixado de desenhar quando fez 65 anos e regressou definitivamente ao campo que tanto amava, que conhecia em todos os seus aspectos e que tão bem transportou para as aventuras de Clorofila, mas também de criações posteriores menos famosas do que esta, como Sibylline ou Chaminou, o gato detective.
Apesar de nunca ter conhecido a consagração de contemporâneos e amigos seus como Hergé (que lhe reconheceu o talento logo aos primeiros desenhos e o meteu no Tintin, em 1954), Jacobs, Franquin, Peyo ou Jijé, Raymond Macherot entrou direitinho para o panteão dos grandes da banda desenhada franco-belga, graças a Clorofila.
Criado em 1954 após Raymond Leblanc, o lendário editor do Tintim, ter visto um desenho que Macherot fez de um ratinho a roer uma cenoura, e de o ter encorajado a criar uma série animalière tendo bichinhos como personagens, o ratinho do campo Clorofila, acompanhado pelo seu queixoso amigo Minimum e pela desenvolta lontra Torpedo, viveu uma dezena de aventuras e enfrentou os ratos negros comandados pelo terrível Antracite, sempre sequioso de poder. Foi a primeira série do género a ser publicada pelo Tintim, e caiu imediatamente no goto dos leitores da revista.
Raymond Macherot não se acomodou ao sucesso imediato da série e não a deixou estagnar. A partir de 1957, e após uma aventura na cidade grande, Salame para Salamina, tirou Clorofila e companhia dos bosques e instalou-os numa ilha chamada Coquefredouille, que reproduz satiricamente e caricatura o mundo dos humanos à escala animal, e é governada pelo bondoso rei Mitron XIII, constantemente ameaçado por bombistas e conspiradores (entre os quais surge Antracite, claro).
Nascido e criado no mundo rural, Macherot adorava a vida ao ar livre e os animais, todos sem excepção. Quando era pequeno, punha queijo, em vez de ratoeiras, em todos os buraquinhos de roedores que descobria, e sempre que via uma armadilha posta, destruía-a.
O seu antropomorfismo delicado e poesia bucólica, a representação pormenorizada da natureza e o conhecimento e respeito das suas regras, e o saboroso retrato de grupo do mundo animal, aliados ao traço claro, à inventividade gráfica e ao sentido de humor de Raymond Macherot, transformaram Clorofila num clássico perene da banda desenhada e das histórias animalières da tradição franco-belga. Foi-se outro dos grandes e como este não há mesmo mais.

Edinter/ASA/Camarada
1 - Clorofila Contra os Ratos Negros (Classicos da Revista Tintin)
2 - Clorofila e os Conspiradores
3 - Nada de Salame Para Celimene
xx - Os Quebra Ossos

1 - Chlorophylle contre les rats noirs (1956)
2 - Chlorophylle et les conspirateurs (1956)
3 - Pas de salami pour Célimène (1957)
4 - Le retour de Chlorophylle (1961)
5 - La revanche d'Anthracite (1964)
6 - Chlorophylle et les loirs cosmonautes (1970)
7 - Le furet gastronome (1970)
8 - Chloro à la rescousse (1971)
9 - Les gens du voyage (1972)
10 - Chlorophylle et le grand exode (1973)
11 - L'île empoisonnée (1974)
12 - Panique au petit bois! (1974)
13 - Chlorophylle et les yeux noirs (1977)
































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